A GRANDE APOSTASIA
“[...] porque não será assim sem que antes venha a apostasia [...]”
“Apostasia” do grego “αποστασια - apostasia” que também significa separação, deserção, rebelião, revolta.
Paulo predisse mesmo sobre uma apostasia espiritual? Esta é uma ideia comum, mas esta palavra também indica uma rebelião social ou política.
Desde 63 a.C., as guarnições romanas estacionadas em toda a Palestina exploravam os judeus com impostos punitivos, excedendo a cota estabelecida pelo Império Romano e mantendo os ganhos excedentes para si. Os procuradores romanos juntamente com os reis da dinastia herodiana subjugaram o sumo sacerdócio judaico, destituíram o sumo sacerdote da dinastia dos hasmoneus e nomearam um sumo sacerdote de ascendência babilônica e, mais tarde, de ascendência alexandrina. Agora, o sumo sacerdote ocupava um cargo de confiança no governo romano, devia obediência e fidelidade a Roma, contrariando o mandamento da lei mosaica, pois apenas os descendentes de Arão, irmão de Moisés, poderiam ser elevados ao cargo.
Os poderes políticos em Israel, exigiam de seus súditos judeus um juramento de obediência, não raro em oposição às normas patriarcais, profanando práticas judaicas sagradas com rituais pagãos e sacrílegos. Em 39 d.C. o imperador romano Calígula declarou-se divino e ordenou que suas tropas em Jerusalém colocassem uma estátua com seu nome no templo (Flávio Josefo, Ant. 18:8:2-3). Quando os judeus se recusaram, Calígula ameaçou destruir o templo, mas o seu assassinato pela guarda pretoriana em 41 d.C. salvou Jerusalém de um cerco prematuro. No entanto, a ameaça de Calígula fez com que muitos judeus moderados em relação à ocupação romana mudassem para visões políticas anti-romanas extremistas e radicais. À medida que o tributo romano se tornou mais oneroso, os sacerdotes judeus alienados pelo sumo sacerdócio pró-romano juntaram-se ao esforço para conquistar a liberdade política e religiosa por todo e qualquer meio possível, formando assim os Zelotes, uma facção judaica nacionalista radical que lutou contra o domínio romano sobre Israel. Os Zelotes inflamaram o sentimento anti-romano em toda a Galiléia e na Judéia pregando a luta armada contra os opressores e promovendo uma agenda anti-romana. Em “Antiguidades Judaicas”, Flávio Josefo atribui a Judas de Gamala, também chamado Judas, o galileu (Atos 5:37), a fundação do movimento Zelota.
Em 66 d.C., os Zelotes incitaram a revolta judaica, a franca rebelião estourou quando o procurador da Judeia Géssio Floro requisitou dezessete talentos do tesouro do Templo de Jerusalém dizendo ser em nome de César. Segundo Flávio Josefo, a ganância de Floro foi a causa principal da Grande Revolta Judaica que foi sinalizada pelo sumo sacerdote Eleazar ben Ananias quando recusou-se a oferecer sacrifício ao imperador romano e massacrou a guarnição romana de Floro em Jerusalém. Em resposta, Nero imediatamente ordenou a Caio Céstio Galo, o legado romano da Síria, para esmagar a rebelião. Com sua Legio XII Fulminata de 5.000 homens, Céstio Galo foi emboscado e derrotado em Beit-Horon em 66 d.C. por 2.400 Zelotes liderados por Eleazar ben Simon, líder Zelote durante a Primeira Guerra Judaico-Romana, Eleazar teve ajuda de Simon bar Giora, líder de outra facção, os Sicarii (uma classe de Zelotes mais violentos), que liderou o ataque contra as tropas romanas que avançavam, impedindo o avanço atacando do norte, quando se aproximaram de Beit-Horon. Esta vitória dos Zelotes marcou o início da Primeira Guerra Judaico-Romana, no 12º ano do reinado de Nero.
O termo Zelote do grego “Κανανιτης - Kananites” significa “zeloso” no sentido de “fanático”. Os Sicarii, no português Sicários, utilizavam a "sica", um tipo de adaga pequena, escondida em seus mantos, daí a origem de seu nome. Em assembléias públicas, eles sacavam estas adagas para atacar romanos ou judeus moderados e simpatizantes, se misturando depois à multidão para escaparem. Hans G. Kippenberg, baseando-se em documentos judaicos, diz que o termo Sicários “foi a denominação dada ao movimento revolucionário rural (camponês) da judéia” e os Zelotas como sendo “um movimento sacerdotal”.
Desde o início da guerra em meados 66 d.C. até a destruição do templo em 70 d.C., Eleazar ben Simon lutou veementemente contra as guarnições romanas na Judéia e contra seus compatriotas adversários políticos para estabelecer um estado judeu independente de Roma em Jerusalém. Em 68 d.C. João Levi de Gischala, o herói que escapou da conquista romana liderada por Tito Flávio na Galiléia, juntou forças com Eleazar ben Simon em Jerusalém e minou o poder dos judeus moderados e pró-romanos.
Segundo Kippenberg, a rebelião judaica contra o domínio romano tinha três fins:
1° - Suspensão do pagamento dos tributos;
2° - Suspensão dos sacrifícios pelo povo
romano e seu César, e
3° - Ereção da soberania política.
A derrocada judaica em Jerusalém, é atribuída por historiadores, à incapacidade de se estabelecer uma união entre Eleazar ben Simon, João Levi de Gischala e Simon bar Giora, qual resultou em uma amarga e sangrenta guerra civil entre três facções, enfraquecendo a resistência judaica contra Roma. De acordo com Tácito, “havia três generais e três exércitos, e entre esses três havia luta constante, traição e incêndio criminoso” (Histórias 5.12.3). E ainda de acordo com Flávio Josefo; Na primavera de 69 d.C., Eleazar “desejava ganhar todo o poder e domínio para si mesmo” e “revoltou-se contra João [Levi]”. Ele e seus seguidores “apoderaram-se do pátio interno do templo” e fizeram uso das coisas sagradas ali (Guerras 5.1.2). Neste momento, ele liderou uma das três facções Zelota, com as outras facções sendo lideradas por João Levi e Simon Bar Giora ( Guerras 5.1.1, 4).
Observe a sincronia dos relatos históricos com texto do Apocalipse.
“A grande cidade [Jerusalém] foi dividida em três partes, e as cidades das nações simplesmente desmoronaram. Deus lembrou-se da grande Babilônia [Jerusalém] e a fez beber o cálice do vinho do furor da sua ira.” (Apocalipse 16:19)
As políticas anti-romanas radicais espalhadas por Eleazar ben Simon, João Levi de Gischala e Simon bar Giora e, facções extremistas, principalmente os Zelotes e os Sicarii (Sicários) e, a erradicação sangrenta da aristocracia moderada e simpatizantes à Roma do templo de Jerusalém em 67 d.C., também impediram qualquer acordo de paz com os romanos para evitar as calamidades e a destruição que se seguiram em 70 d.C. e da antiga Jerusalém finalmente sucumbir.

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