segunda-feira, 23 de dezembro de 2013



HERMENÊUTICA BÍBLICA

É um princípio básico da hermenêutica de que passagens obscuras ou difíceis devem ser interpretadas à luz daquelas que são claras. O grande obstáculo de muitos na compreensão da escatologia bíblica é a natureza figurativa da linguagem apocalíptica. A linguagem dos profetas, pela sua própria definição é velada e obscura, ela é marcada por imagens poéticas, hipérboles, metáforas e símbolos. Assim, como entre a linguagem apocalíptica que descreve a forma da volta de Cristo e as demonstrações simples de tempo determinados pelo Senhor e seus apóstolos a respeito de quando isso poderia ocorrer, é evidente que o primeiro deve ser interpretado à luz do último e não o contrário. Defendo que o ensino escatológico do Senhor e seus apóstolos foram fielmente cumpridos. Insisto que a forma de cumprimento era essencialmente espiritual, não física, e que a linguagem em que aparece para descrever a dissolução dos elementos como céus e terra em um fim catastrófico de tempo e espaço deve ser uma construção figurativa. Isso é necessário, não só por causa do confinamento para a realização imposta pelas declarações de tempo, mas pelo modo de falar (usus loquendi) dos profetas. O seguinte texto descreve o julgamento de Deus sobre Edom e as nações do mundo nos dias da Assíria e da Babilônia, que vai nos ajudar a tornar o ponto em análise mais claro:
Chegai-vos, nações, para ouvir, e vós povos, escutai; ouça a terra, e a sua plenitude, o mundo, e tudo quanto produz. Porque a indignação do SENHOR está sobre todas as nações, e o seu furor sobre todo o exército delas; ele as destruiu totalmente, entregou-as à matança. E os seus mortos serão arremessados e dos seus cadáveres subirá o seu mau cheiro; e os montes se derreterão com o seu sangue. E todo o exército dos céus se dissolverá, e os céus se enrolarão como um livro; e todo o seu exército cairá, como cai a folha da vide e como cai o figo da figueira. Porque a minha espada se embriagou nos céus; eis que sobre Edom descerá, e sobre o povo do meu anátema para exercer juízo. E os seus ribeiros se tornarão em pez, e o seu pó em enxofre, e a sua terra em pez ardente. Nem de noite nem de dia se apagará; para sempre a sua fumaça subirá; de geração em geração será assolada; pelos séculos dos séculos ninguém passará por ela. (Isaías 34:1-10)
A natureza poética e figurativa da linguagem é evidente, ninguém vai afirmar que na dissolução de Edom e das nações da ira de Deus, que as estrelas do céu foram literalmente dissolvidas, que os céus enrolam-se como um pergaminho, ou que o pó da terra foi transformado em enxofre. Edom deixou de existir como um povo separado há milênios, no entanto, nenhum dos fenômenos físicos descritos aconteceu de fato na referida passagem das Escrituras de Isaias. Embora a linguagem de natureza universal que envolva todo o tecido do céu e da terra ser utilizadas para descrever as decisões anunciadas, o seu cumprimento está circunscrito no tempo e forma tão somente para pessoas. A ocorrência de tal linguagem e imagens é comum em todo o Antigo Testamento, em passagens descrevendo julgamento de Deus sobre vários povos e nações, é a forma usual dos profetas judeus, invariavelmente, trata-se de uma linguagem poética, não literal e repleta de figuras linguísticas. Compreender a natureza figurativa da linguagem apocalíptica no Antigo Testamento é essencial para o domínio da escatologia bíblica para pelo menos duas razões:
Primeiro, porque uma linguagem idêntica é empregada por Jesus e pelos apóstolos no Novo Testamento, portanto devemos saber como interpretá-las, temos que dar-lhes uma construção e interpretação consistente com o uso histórico dos profetas judeus do Antigo Testamento, ou nós de repente, deixamos de lado as regras a muito estabelecidas de interpretação em favor de uma abordagem literal? No seu grande discurso escatológico no monte das Oliveiras, Jesus disse: Imediatamente depois da tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, e a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e os poderes dos céus serão abalados. Em verdade vos digo que esta geração não passará sem que todas estas coisas aconteçam. (Mateus 24:29-34). É a intenção do Senhor que nós entendemos que ele quer dizer que as estrelas, literalmente iam cair do céu nos eventos que ele descreveu, e não antes, que estes foram os valores utilizados para descrever os eventos de caráter político e natureza espiritual? Se abandonarmos o uso histórico dos profetas e optarmos por uma abordagem literal, que base teremos? Não estamos em terreno mais seguro para aderir a métodos estabelecidos de hermenêutica? Se o usus loquendi dos profetas não exige tanto, certamente a declaração expressa do tempo de realização não o faz. Certamente, nós procuramos em vão para a realização dos eventos descritos além da geração abordada. Dentro da vida de muitos, Jerusalém então seria destruída e o sol monárquico iria escurecer, a lua sacerdotal iria retirar a sua luz, as estrelas dos anciãos do Sinédrio cairiam, enquanto o governo e a política da nação judaica sofreriam a dissolução definitiva e irrevogável.
Em segundo lugar, a compreensão da natureza figurativa da linguagem apocalíptica no Antigo Testamento, é essencial para o domínio da escatologia bíblica no Novo Testamento, por causa da relação das partes como um todo. O Novo Testamento é o cumprimento do Antigo Testamento. Em nenhum lugar do Antigo Testamento ha profecias sobre o fim do cosmos em conexão com a vinda do Messias, ou o contrário. Da mesma maneira nem Jesus e nem os apóstolos profetizaram tais coisas. Nada deve ser introduzido no ensinamento do Novo Testamento e da doutrina escatológica que não possa ser provado quando recorremos ao Antigo Testamento. O Antigo Testamento não ensina que a Terra deve ser destruída em um ato final associado com o reinado do Messias, não há base para a introdução desse ensino no Novo Testamento. Para fazer isso, deve-se romper a continuidade entre os Testamentos como o desdobramento do propósito redentor de Deus para o homem. No Velho Testamento, foi profetizado o Reino do Messias, no Novo Testamento ele é garantido que vem. Longe de profetizar a destruição do cosmos, a vinda de Cristo era para marcar uma era de paz sem precedentes na terra com o reino do Messias estendido a todas as nações. A Cristandade serviria para unir as nações do mundo político, como na Igreja as nações se uniriam espiritualmente. Como companheiros de membros do mesmo reino espiritual, a nação não levantará a espada contra outra nação. (Isaías 2:4) As nações que foram divididas por idioma e região estariam unidas em uma linguagem comum em Cristo, como acontece com uma mente e uma boca, eles voltaram graças e louvor a Deus, seu Salvador. No entanto, em primeiro lugar todos os inimigos tinham que ser colocados sob os pés de Cristo. (Hebreus 2:8) A destruição de Jerusalém e as guerras civis e tumultos entre os romanos após a morte de Nero César representam a subjugação dos inimigos de Cristo e sua entrada em seu reino eterno. Uma vez que as declarações são claras, a imagem apocalíptica de Cristo e dos apóstolos devem ser interpretadas de modo a cumpri-las, e não vice-versa. O cumprimento da segunda vinda de Jesus naquela geração é um fato certo, nenhuma outra interpretação pode ser colocada em cima desta linguagem coerente com a inspiração verbal das escrituras e com os princípios da hermenêutica.
O MUNDO JÁ PASSOU
Uma boa parte da confusão sobre a maneira que se daria a Segunda Vinda de Cristo nasce de um equívoco fundamental sobre a natureza do mundo que seria destruído e a natureza do mundo que ficaria no lugar do destruído. É evidente a partir do Sermão do Monte (Mateus 24, Marcos 13; Lucas 21) que o mundo que seria destruído, estava intimamente ligado à cidade e o templo de Jerusalém. Mundo esse que, desapareceu em 70 DC.
E, quando Jesus ia saindo do templo, aproximaram-se dele os seus discípulos para lhe mostrarem a estrutura do templo. Jesus, porém, lhes disse: Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada. E, estando assentado no Monte das Oliveiras, chegaram-se a ele os seus discípulos em particular, dizendo: Dize-nos, quando serão essas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo? (Mateus 24:1-3).
Para pessoas que falam Português, mundo, muitas vezes carrega conotações da terra habitada. Assim, o fim do mundo, sugere a destruição absoluta de todos os seres vivos de todos os tempos. Mas isso é um erro do uso bíblico da palavra. Um mundo passaria nos eventos que culminaram com a destruição da cidade e do templo. O mundo marcado para a destruição imediata era o mundo dos judeus. Os judeus tinham existido como uma nação cerca de 1.200 anos. As ordenanças da lei mosaica, a monarquia e o sacerdócio, o templo, juntamente com o seu mobiliário e os serviços, os modos, costumes e tradições que haviam crescido ao longo dos séculos foram os elementos do mundo do Antigo Testamento, a habitação e residência dos judeus. Tudo isto estava prestes a virar ruínas. Por mil e duzentos anos os homens haviam trabalhado em cativeiro nos termos da lei, sem alívio do poder do pecado e da morte. Pecado e morte reinaram desde Adão até (e incluindo) a Moisés. (Romanos 5:14-17-21). Era impossível que o sangue de touros e de bodes tirasse os pecados. (Hebreus 10:4) Mas Cristo tinha entrado na casa do valente e estragou-lhe os bens (Mateus 12:29); Cristo tinha estragado o principado e poder do pecado e da morte, triunfando na cruz. (Colossenses 2:14-15) Os preceitos da lei em breve desapareceriam (Hebreus 8:13), os elementos do mundo seriam dissolvidos e um novo céu e uma nova terra assumiriam seu lugar. (II Pedro 3:10-13; Apocalipse 21:1) O escritor de Hebreus fala disto quando ele se refere ao mundo vindouro que falamos. (Hebreus 2:5; 6:5) De fato, os efeitos da cruz de Cristo foram tão longe, e o seu domínio tão abrangente, que o mundo inteiro estava passando. (I Coríntios 7:31) O mundo pagão também ficaria sob o domínio de Cristo, e todas as nações serviriam e lhe obedeceriam; Cristo iria governar as nações com cetro de ferro, e os vasos de barro seriam quebrados (Apocalipse 2:27). Assim, o mundo de que fala Cristo em seu Sermão do Monte não era a terra com seus elementos químicos, mas o mundo Judaico.

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